E me vi, tal como Fausto, perdido na ciência das respostas prontas, da moral mesquinha e da falta de vida. E, assim como ele, rodei pelas volúpias do pensamento, guiado por um bendito demônio.
Mas... Ai de mim! Encontro-me agora a ponto de tudo recomeçar, desta vez querendo um demônio mais digno da minha força. Destruí a Deus, como tantos fizeram, mas devo agora destruir a mim mesmo, eternamente. Atingir a loucura que liberta o homem do jugo de si mesmo; encarnar as ondas do mar que simplesmente vêm e vão; escorrer como gotas de chuva nas folhas das árvores; gozar como se a união cósmica fosse possível. E devo percorrer tal caminho, um perigoso caminho. E devo ter coragem e força para superar a mim mesmo. E devo me esquecer, para me reencontrar no círculo que tudo reúne, que tudo destrói e que tudo cria.
Quantas ironias já não foram proferidas a fim de revelar tal verdade? Que tais palavras se elevem à categoria de divina prostituta, cobrando por tudo o que dá, para assim se tornarem verdade. Desça.
Desça. Para que sintas isso deves descer, cair tal como uma cachoeira de sangue – é o preço que se deve pagar. E, se isso acontecer, que os deuses olhem por ti e que te permitam novamente subir. E que aquilo que sobrou do desmantelamento de mim mesmo, e que aquilo que foi criado neste processo, possa estar ao seu lado, sentindo novamente a vida. E que tal desejo se esvaia pelo ar que respiras, que penetre nas tuas entranhas, que te faça gemer de dor e de prazer.
Quanto mistério inútil cultivei? Quanta estupidez proferi? Que agora eu possa retornar e me fazer entender. Que agora eu possa finalmente lhe achar.
Escrito por Marcel às 16h38
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Que coisa é essa o coração sem gelo? Será essa a vida? Como dói ansiar por uma beleza de relação que parece impossível, tão perto e tão distante. Será que essa dor é resultado do meu convalescer? Ah, dor infinita, dor da beleza, dor linda e imaculada, eu nunca imaginei que sentiria o seu peso novamente. Não estou mais acostumado aos seus caprichos, mistérios que nunca se relevam. Será que algum dia alguém entenderá e conseguirá reunir num só corpo todas as minhas dores? Elas clamam por serem satisfeitas pela sua morte. Tudo voltou a ser como era antes. E todo esse tempo, em que estive fabricando instrumentos que tampassem meus ouvidos e evitassem que eu caísse no canto das sereias, foi inútil. Não sei como nomear a sensação que me assola, afinal, são tantas e tão poucas as palavras! Melhor não dizer nada e apenas fazer o que é necessário fazer. Espero que ao final da caminhada meu coração ainda esteja batendo. Estou esperançoso, esperando, novamente esperando. Mas não basta, sei que não basta. Conseguirei eu ser a minha dor e a possibilidade e necessidade de superá-la?
Escrito por Marcel às 02h05
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É inalcançável, tanto pra mim quanto para ti. Tão inalcançável que sinto a mim mesmo dançando ao longe, afastado daquilo que me faz significar, ou seja, afastado de mim mesmo. E é quando me encontro, de maneira efêmera, imerso naquilo que realmente sou - ou não sou, tanto faz – é que brotam em mim os sentimentos, sensações, descritas toscamente. Um átimo, num átimo, de amor, de loucura, de perversão. É como se meu corpo se despedaçasse em mil desejos, que procuram a todo custo a satisfação completa. Se Deus está morto e o Eterno Feminino é uma ilusão tão grande quando Deus, resta apenas o desejo de morte, de demência. E aí esta a poesia, aquela poesia que consagra os deuses menores; e ela está ao alcance de todo aquele que quer alcança-la. Eu não sou eu, eu sou você. Esta é, então, a ponte, talvez a única ponte possível. Todas as outras pontes parecem quebrar antes mesmo de darmos o segundo passo, e nos fazem cair no abismo. Levantemos do abismo, que ele é pequeno demais para nós. Esmaguemos as pontes menores com nossos pés de gigante. Sejamos crianças a brincar, a operar jogos poéticos com os objetos do mundo. Chega da hipocrisia de todas as morais estáticas. Chega de viver na nossa casca podre que é a razão. Queremos vida e morte. Queremos amor, sexo, prazer, desejo, superação, revolução, arte. Sejamos tal querer.
Escrito por Marcel às 01h00
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