Jogos mortais
Quão efêmero é o sentimento de proteção mesclado com o sentimento de plenitude! Poucas vezes sente-se isso, talvez porque poucas vezes tem-se a intuição da vida. Nesses momentos, enfiar uma faca na própria barriga e cheirar uma flor constituem uma única coisa, a vida. Sente-se vontade de viver, viver para morrer. E somente a catarse artística, além de situações como a guerra, são capazes de fazer gerar tal sentimento. Nelas a vida se desintegra em mil pedaços e volta a se unir no corpo, na ferida, no limiar. É aí que o sentido aparece, ambíguo, efêmero, paradoxal. Existem somente duas opções: viver ou apenas viver. Escolher. Jogar para longe as corcovas que pesam em nossas costas, eis a vontade da vida. Gerar a nós mesmos, ao mesmo tempo em que se gera a desintegração do eu.
Novamente exclamo: o homem deve deixar de ser o homem de Sócrates.
Escrito por Marcel às 01h11
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Som Vida
Sinta
Morte Esqueça
Escrito por Marcel às 00h16
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Verdades sensíveis
Será a chuva criação humana?
Será a chuva lágrimas divinas?
Será o sol astro rei?
Ou disco de moléculas?
Será a lua musa da grande arte?
Será paixão flutuante de um tolo?
Será o olho flecha letal?
Ou matéria sensível e vã?
Será a pele profunda verdade?
Será a pele signo, inútil pobreza?
Será a boca garantia de vida?
Ou busca de realizar junção?
Será o sentido um sentido pleno...?
Escrito por Marcel às 00h13
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Além do que se diz
Cristalizações
Palavras significam
De sentido ausente
Presente unidade
De força contida
Imanente saudade
Efemeridades
Tempo e espaço ambíguos
De sentido pleno
Energia dança
Inocente força
Vôo de criança
Escrito por Marcel às 00h11
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A poesia... Que se erga a poesia dos entulhos hegelianos. Que seja dado novamente ao homem o direito à liberdade poética, essa que é a única liberdade que realmente pode ser experimentada. Única porque todas as outras estão abaixo dos códigos pré-estabelecidos, os códigos iluministas, burgueses, marxistas, etc. Única porque não se detém frente ao mundo das possibilidades. Ela é a escolha fundamental do homem, primeira e última, meio e fim. Sobrevoa ironicamente o mundo das cristalizações negativas. Plena positividade, energia criadora, energia transformadora. Fluxos e refluxos na sua forma pura. Confusão probabilística dos conceitos absolutos. Que nunca mais seja proferido um “por quê?”. Que nunca mais se justifique o presente com uma determinação que carece de liberdade, com a baixeza de esquemas prontos, com a falta de poesia. Escolha-se, homem, mas escolha-se poeticamente. Não se subtraia ao colapso da vida. Não confunda algo que é pleno, que é dado, que é pura intuição. Não se subtraia ao mundo de mentiras que é resultado do amor descrito, dos signos restritivos que fogem as multi-(meta)dimensões. Escolha-se, homem, pense, sinta. Sua moral está acima dos valores. Sua moral está na liberdade plena e verdadeira da poesia. Sua moral está além dos sistemas repressivos. Ache-a, sinta-a, sem descreve-la. E faça poesia. E entenda poesia. E sinta poesia.
Escrito por Marcel às 02h16
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Oscila o pêndulo
Oscila o pêndulo
Oscila longe
Próximo àquele
Oscila verde
Luz de manhãs
Brilhos noturnos
Oscila alto
Profundo ódio
Lascívias vãs
Mar de tonturas
Oscila perto
Visões alargam
Sendo nada mais
Falsos gritos
Mentiras brancas
Oscila baixo
Signo de terror
Infinitos
Câncer de papéis
Oscila logo
Monge negro
Acaba puro
Oscila longo
Sentindo a pele
Oscila o pêndulo...
Oscila...
Ciladas de felicidades
Lonjuras de tristezas
Silvos de um vivo cadáver
Oscila dentro da casa mãe
Oscila...
O pêndulo...
Escrito por Marcel às 02h15
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E quem?
Imaculada felicidade
De hábitos noturnos
Rasteja sob o chão
E quem irá realmente identifica-la?
Lascívia sem pudor
De fraqueza em chamas
Eterno regozijo da alma
E quem irá realmente uni-la?
Carne celeste
De lamentos d’água
Infâmia da arte
E quem irá realmente senti-la?
Chuva de dor
De eterna pureza
Animal doentio
E quem irá realmente experimenta-la?
Paixão pelo amor
De um buraco profundo
Céus estrelados
E quem irá realmente entendê-la?
E como?
E quem irá realmente dar sentido?
E quem irá realmente penetrar?
E quem irá realmente olhar no espelho
Percorrer as superfícies planas
Saltar, dançar e voar nos limites
Escorregar sobre as barreiras?
Escrito por Marcel às 02h13
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Paz
Paz....Insistia nele uma indiferente, frágil e efêmera paz.
Não lhe importavam mais os momentos de tristeza, pois tinha a certeza de que tais momentos eram necessários para que sobreviessem os momentos de felicidade.
Sentia-se convalescer, de uma maneira que nunca havia imaginado que pudesse acontecer.
Ainda que alguns sintomas doentios permanecessem, ele tinha a certeza de que havia extirpado a podridão que havia se alojado em seu corpo e em sua mente nos últimos anos. Sabia que o que permanecia era apenas a doença inevitável, aquela que fazia com que o ser humano pudesse ser taxado como uma paixão inútil. E quanta utilidade ele enxergava nessa inutilidade.
Contemplava a dança dos seres que não existiam, que nunca existiram, e que nunca iriam existir. Como era bonita e expressiva aquela dança, ao mesmo tempo clássica e romântica, onde podia se vislumbrar nada mais que... nada.
Já não procurava mais Deus, não tinha mais necessidade disto; assumira a morte maldita deste bendito malfeitor. E quando lhe aparecia à mente a imagem do funeral do mais famoso dos seres, um sorriso desabrochava em sua face. Timidamente, seus lábios, quase que imperceptivelmente, assumiam uma forma que continha uma plenitude sem igual, capaz de apagar todas as máculas contraídas nos períodos de doença. Essa tênue sensação era capaz de fazer explodir, de fazer girar, de espalhar ao infinito, de por a correr e a saltitar todos os fatos que já não mereciam e nem permitiam explicação.
Desejava gritar ao mundo sua passividade. Olhava-se no espelho, como tantas vezes o fizera, e viu que ainda era o mesmo. Mas, mesmo que não entendesse como uma gota pudesse causar um dilúvio, sabia que algo estava mudando. Havia um novo olhar que, no entanto, conservava a timidez, a força, o brilho e a vontade.
Faltava-lhe, é claro, muitas coisas. Ainda não descobrira inteiramente a profundidade da pele. Tinha necessidades, desejos, angústias, desesperos, soluços, medos e principalmente um sentimento de solidão. Estava aprendendo a lidar com tais coisas, como haveria de estar pelo resto de sua vida.
Mas, havia nele uma claridade, um vago e distante sentimento de proteção, um desejo e uma certeza que o faziam sentir-se mais humano do que nunca. Queria olhar novamente para as estrelas, voltar a senti-las. Queria compartilhar sua plenitude que, no entanto, era incompartilhável.
Não importava, tudo fazia sentido novamente. Nenhuma explicação, nenhuma significação, apenas um sentido, uma sensação, tão forte, mas ao mesmo tempo tão frágil. E como tudo aquilo era lindo, e como tudo aquilo era belo.
Lembrava das pessoas, dos seus sorrisos, das suas vozes, dos seus desejos, dos seus mistérios, e aquilo tudo o excitava. Ele sabia que aquele momento iria acabar. E mais cedo ou mais tarde, ele iria acabar argumentando, sem sucesso, com a morte.
Mas, não importava, não importava...
Ele só queria. Queria dizer o que ninguém podia escutar, o que ninguém podia entender, o que ninguém podia sentir.
Se ao menos ele pudesse...
Escrito por Marcel às 02h12
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Portões do inferno
Pés sujos de terra
Andam nos céus
E o céu se faz carne
Diante dos meus olhos
O iluminado abismo
Permanece inacessível
O fruto é oferecido
Num eterno banquete
De desejoso deleite
Não vejo meus olhos
Vejo o demônio
Deus encarnado
A senda perigosa
Percorre o meu sangue
Que não sou eu
Pés sujos de terra
Andam nos céus
E o céu se faz carne...
Escrito por Marcel às 02h11
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Linda
Linda
Intocavelmente e infalivelmente linda
Brancura de paz e de sabor
Tal nuvem sensivelmente bela
Textura de mágica limpeza
Bela
Ardentemente e placidamente bela
Sem asco e sem angústia
Tal rio de águas calmas
Pacificamente corre
Calma
Sensivelmente e lindamente calma
Calor de verdes campos
Tal montanha de lonjuras
Espera a presença final
Longe
Brevemente e presentemente longe
Número infinito de sonhos
Tal estrela de ar vivaz
Sabiamente expressa
Amor
Perfeitamente e eternamente amor
Pulsante de algo sem fim
Tal coração de ares profundos
Cheiro de brilhantes rosas
Tão linda e bela
Tão longe que deseja
Tão calmo que espera
Amor... Amor...
Escrito por Marcel às 02h08
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Neurônios ilhados
Rede de naves descontroladas
Passageiros loucamente dementes
Caos generalizado, generalizante
Singularizando a parte infinita
Ossos inquebráveis
Da selva claramente obscura
Da relva que pretende
Esclarece enquanto ausente
Bolhas de retardo
Tal chuva de migalhas
Toma o pássaro a cor
Produto da nascente
Fortalece o reino
Aliena o tesouro
Fobia do presente
Casa sem janelas
Claustrofobia
Câncer da palavra
Faca de mil gumes
Feitiço contra si
Quebra...
Falso...
Nada...
Deus...
Faça...
Chore...
Olhe...
Sinta...
Moléculas e átomos
Sons e espelhos
Cores e perfumes
Formas e angústias...
Escrito por Marcel às 02h07
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Não sou mais
As penas da ave divina, de brancura incomparável, me reconfortam, me esquentam. A fenda ameaçadora é apenas uma possibilidade, a qual não quero enfrentar. Escuridão. Calor. Não quero luz, não quero ser visto nesse estado. Dobro-me sobre mim mesmo, tentando realizar a união. Ouço o sino batendo lá fora, me chamando, clamando por minha presença. Não quero respirar, para que ninguém ouça meu gemido. À minha volta, o refúgio, o nada, o som. Sinto a vibração plena, dotada de amplitude sem igual, fazendo reverberar meu coração, que quase explode frente a tal poder revelador. Proteja-me. Antes mesmo de poder, realizo-me, de um modo que nunca ninguém poderá fazer. Sentimento que pende, que fere. Estou com medo, mas estou protegido. Nenhum mal me ocorrerá, pois sei que a constância trabalha a meu favor. Sinto o meu eu definhar. Não consigo mais identificar o que sou. Não consigo mais lembrar no que pensava. Não consigo mais lembrar se minha face era bela.. Definho. Desço. Respiro vagarosamente, cada vez menos. Onde estou? Nem sequer minha existência me é certa. Meu ocaso está próximo. Medo. Alegria. Finalmente. Plenitude. Finalmente. Não sou mais.
Escrito por Marcel às 02h06
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O mistério da oscilação
Por que espero aquilo que não irá me salvar da danação eterna? A prostituta santa, com seu poder infinito de mãe do universo, invade minha mente, em seu estado desnudo, em sua forma pútrida, se assemelhando a mais bela flor. E eu, dominado por estranhas sensações, com a mente a pensar loucuras incomensuráveis, falsas verdades de um mundo que sempre existiu justamente por ser ilusório, ainda permaneço esperando. Espero. As forças magnas me controlam tal qual um pêndulo de dimensões infinitas, maior que o universo visível, detectável e indetectável em sua invisibilidade científica e sensorial. Será o universo o erro de um Demiurgo idiota? Será Deus tão incompetente a ponto de não conseguir resolver o simples problema do mal? E aqui me afundo cada vez mais no labirinto das desesperanças, da dor, da solidão eterna. O mundo age como uma célula descontrolada a causar um gigantesco câncer semântico. As palavras nada mais fazem do que nos condenar ao Céu, o maldito Céu, onde a razão controla os desejos. Oh, como são fortes os leões quando estão presos numa jaula abstrata! Eles continuam afirmando seu eterno poder, se colocando no seu lugar, enquanto todos os imaginam controlados. Novamente – que horror – o engano humano. O maior de todos os enganos. Por que nascemos em meio a ele? Por que estamos todos condenados? Por que alguns se lançam a descobrir os segredos do inferno, a fim de realizarem o que deve ser realizado? Um dia a terra se chamará Inferno, e o Inferno se chamará Paraíso. Quão tolo é o homem!!! Quão tolo fui e sou eu!!!
Escrito por Marcel às 02h05
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Estás vendo Dionísio?...
Estas?....
Sentes Dionísio assim como sentes uma dor dilacerante?...
Não?!
Pobre alma! Pobre alma! Perdida num fraco mundo ético.
Não sentes o verdadeiro mundo que pulsa por detrás das coisas?
Estás vendo Dionísio? Não?!
Vede!
Vede Dionísio sentado imperiosamente na nuvem das desarmonias.
Tu que és dissonância encarnada, não sentes o teu pai?
Oh, filho maldito, cego e fraco, estas palavras não lhe tocam?
Vive além das aparências.
Experiencie esteticamente...
Permita que teu pai penetre no que vês, fazendo com que aconteça diante de si a explosão reveladora.
Vede a luz que irradia da coisa em si.
Teu pai é o único que pode lhe mostrar o que realmente existe.
Oh! Quantas vezes não fostes enganados pelos fracos críticos, estetas falsos, perdidos em sua ética abstrata.
Abstratos são teus pilares? Que engano, o maior de todos os enganos.
O homem deve deixar de ser o homem de Sócrates.
Agora, humano, vede Dionísio...
Escrito por Marcel às 02h03
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Espelhos poéticos. Múltiplos espelhos com múltiplas faces. Movimento eterno, pulsante e borbulhante. Silêncio criador. Faces que se relacionam gerando energia, tensão e distensão, fluxos e refluxos. Palavras que resultam de colapsos. Palavras que não significam. Sentir. Sublimação do próprio discurso. Tentativa poética de criar energia e vida. Eis o motivo da criação deste blog.
Escrito por Marcel às 02h02
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